On the Screen: Pé Pequeno (Smallfoot) – Melhor do que deveria ser

Eu já vi muitos, mas muitos filmes de animação. Quase o mesmo tanto de animes que eu vi, diga-se de passagem. É algo que eu gosto tanto que cheguei a criar uma lista ordenada com todas as animações que eu vi, indo do melhor até o pior.

https://letterboxd.com/trinisete/list/all-animated-movies-i-have-ever-seen-from-1/

Se juntar com os curtas, então eu vi o dobro que a quantidade de animes assistidos. O número total pode estar nos 2000, mas isso não importa. Eu estou compartilhando isso aqui pois eu adoro assistir filmes de animação, tanto quanto gosto de animes, e acho que você também já percebeu que gosto de falar sobre estes aqui no site.

Sei que muitos dos filmes vão focar em temas mais infantis, e peço desculpas a você que busca aquele dark & edge psicológico cult underground, mas acredito que se o filme tem algo de interessante, mesmo não sendo excelente, este deve ganhar um espaço aqui.

Esse é exatamente o caso de Pé Pequeno, ou Smallfoot nos EUA. Um filme que não tenta esconder em momento algum que tem como foco as crianças, ao mesmo tempo que apresenta um tema clichê “sempre busque a verdade” de uma forma mais complexa e interessante, não caindo naquilo de que menores são burros e não vão conseguir compreender.

Uma armadilha do pensamento “tradicional” que infelizmente afeta muitos estúdios, que acabam simplificando muito a mensagem a ser passada, ao ponto do filme se tornar imbecil, tanto para os parentes que tiveram de suportar ver isso junto de um menor, como para a própria criança que logo nota a inferioridade de certos títulos.

Um exemplo disso seria Bee Movie – A História de uma Abelha. Sim, mais um subtítulo BR que explica o filme. Mas enfim. As mensagens de Bee Movie são “preserve as abelhas” e “o amor desconhece fronteiras”. Esse último mais precisamente focando em espécies, humano e abelha, para tentar passar uma mensagem sobre diferenças raciais.

“Cara, até eu acho esse filme uma bosta. E eu to nele chapá.”

So que é tudo muito escondido sobe essa fachada de, bem… abelhas. E acaba tudo seguindo um rumo cômico e muito infantil ao ponto do filme ser um meme ambulante. Muitos conhecem Bee Movie so por conta do absurdo do enredo, sem nunca nem ter assistido. E pode ter certeza que tanto você leitor, como o seu sobrinho, filho, neto, irmão pequeno, o que seja, também vai achar esse filme uma porcaria.

Acho que o ideal é ter um certo equilíbrio. Passar a mensagem com rigor ao mesmo tempo que traz algo divertido a telona. Ou seja, não esconder tudo em simbolismo e tentar criar um filme que agrade o mínimo possível os pequenos no quesito diversão. E se não pegarem a tal mensagem, ao menos temos ali um filme legal de se ver.

E eu acho que Pé Pequeno consegue se encaixar perfeitamente nisso. É um filme 3D bem animado, apesar de apelar um pouco na hora de aplicar blur para cortar gastos. Tem personagens carismáticos e um mundo utópico muito bem construído. Numa escala menor que coisas da Disney ou Dreamworks, mas ainda assim com aquela magia que vemos em obras como Vida de Inseto e Por Água Abaixo, so para citar alguns.

O mundo dos Yetis é aparentemente perfeito, com uma rotina vibrante e muita tradição. Mas o que acontece quando um jovem devoto descobre algo que diziam ser um mito e passa a contrariar tudo em busca da verdade? A partir desse ponto temos um filme quase de teor ateísta, que não entra de fato contra nenhuma religião existente, mas que ainda assim presa pela busca da verdade.

Migo não quer ir contra seu povo, mas ele vê algo diferente e quer se impor. Isso leva a questionamentos, que por vez geram descobertas. Um mundo inteiro de pés pequenos, ou humanos, abaixo do mundo dos Yetis. Sim, a premissa parece extremamente besta, mas funciona muito bem, graças a maneira como e contada.

Retomando o que falei no começo do texto, a mensagem do filme é “sempre busque a verdade”. Normalmente com um tema desses teríamos um vilão mentiroso ou um grande segredo colossal que levaria a uma aventura fantástica, mas não. Ao invés disso o filme resolve apresentar conflitos bem humanos e de uma forma bem pé no chão.

Descobrir que algo em que se acredita veemente é falso leva a pensamentos como “o que vou fazer agora da vida? ”. Esse é o questionamento principal de Dorgle, o pai de Migo. Ele passou a vida toda trabalhando em prol de um mito, e quando as pedras são questionadas, verdades vem à tona e seu filho é banido, levando ele então rumo a depressão.

O filme é todo bonito e alegre, repleto de músicas sensacionais, e é certeza que qualquer criança vai se divertir assistindo Pé Pequeno. Porem muitas não vão entender momentos mais complicados pelos quais os personagens passam, como a já mencionada depressão. Mas ainda assim eu admiro terem encaixado esses momentos no filme, mesmo que de forma rápida e amenizada.

Um dos meus diálogos favoritos da obra é quando falam que existe algo de real nas pedras. “A ignorância é uma benção”. Um pensamento surgido da descoberta da verdade. Precisávamos mesmo daquilo? No que isso vai mudar as nossas vidas? A verdade sendo espalhada seria algo bom ou ruim?

Esses questionamentos surgem por existir uma desculpa incrivelmente boa para essa falsa utopia existir. Não vou entrar em detalhes, por mais óbvia que seja, mas certamente esse é outro ponto alto do título. Ninguém é vilão e todos tem os seus motivos para fazerem o que estão fazendo. E quase como se cada personagem fosse um ponto de vista distinto e conflitante.

E isso tudo que falei é apenas centrado no ponto do Migo, o principal, o Yeti. Ainda temos outro personagem, um tanto mais apagado. O humano Percy Petterson. Um repórter estilo Discovery Channel que sai mundo afora em busca de mostrar espécies raras. Porem que se encontra no fundo do poço, tanto profissionalmente como financeiramente.

Na maior parte do tempo ele serve de alivio cômico e está presente no filme para mostrar um lado mais ambientalista e, vejam so que coincidência, racial. Mostrar que a natureza deve ser preservada e que diferenças não importam. Um ponto legal dessa parte é que humanos e Yetis não entendem a língua um do outro, mas ainda assim se esforçarem para se comunicarem.

Por outro lado, Percy também demonstra o lado mais cruel dos humanos de querer sempre se dar bem do jeito fácil, com falcatruas mil, apenas para ter grana e fama. E ainda assim, não é um vilão. Diria que mal é um personagem, e é aí que começam os problemas.

A maior parte do filme gira em torno do Migo e conclui as partes relacionadas a ele, como se todo o restante do filme fosse constituído de plots paralelos que ocorrem no caminho do enredo dele. Não tem algo de muito errado nisso, mas faz certas coisas parecerem menos impactantes do que deveriam ser. Ou resumindo, personagens carismáticos, mas inúteis em sua maior parte.

O que faz o filme andar e ser divertido e como um acontecimento leva ao outro quase que instantaneamente. Temos diversos seguimentos musicais muito bem feitos e animados, aqueles momentos de questionamento para dar uma pausa para pensarmos e cenários de humor bem distintos que lembram muito o estilo do clássico papa-léguas.

Novamente, as partes de Migo e dos Yetis que movem a trama. Trapacear, ignorar diferenças e preservar o meio ambiente, entre outros, está no filme. Mas reforço aqui, faltou um certo impacto ou uma construção melhor no enredo. Miyazaki ficaria contente com a tentativa, mas triste com o resultado.

Pé Pequeno nunca para, e vai passando de um cenário para o outro de forma perfeita. Mas também não arrisca sair muito disso, e acaba sendo um filme simplesmente “bom”, que no momento gerou algum impacto e depois pode cair no limbo do esquecimento. Não é um Bee Movie, muito menos um Zootopia. É o ponto no meio dos dois, e para passar uma mensagem acho que isso é ok.

Tente pegar o filme para assistir com uma criança. Elas vão gostar, os mais velhos vão curtir a mensagem e certos momentos chave. Mas não tente ir atrás de Pé Pequeno esperando aquele filmaço, ou vai se desapontar por mais que o filme tente. E ele tenta muito, tem ótimas ideias, mas parece nunca chegar lá, e acaba terminando com uma dezena de clichês. Sinceramente, esperava mais.

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