Stray Dogs – Suspense canino de primeira

Aqui vai uma pergunta estranha. Você gosta de filmes de animação do anos 80 com animais falantes e também curte mistérios sobre assassinatos cheios de suspense? Talvez a resposta seja não, visto o quão as duas temáticas estão longe uma da outra, ao menos num primeiro pensar. Pois obviamente dá para juntar qualquer coisa em prol de se criar algo novo.

Basta ver filmes como The Plage Dogs, onde a animação é adulta e se foca em 2 cães, cobaias de laboratório, tentando fugir para viverem mais um dia. Ou não ir muito longe e ver a mescla de terror com comedia na animação Frankwaine ou pensar como a ideia de 101 Dálmatas poderia ter tomado um rumo macabro sobe a visão de outro roteirista.

Gêneros, temas e afins estão aí para nos guiar, mas não são regras absolutas nem ideias individuais que nunca devem se juntar. Pode existir terror junto de romance ou histórias sobre crianças assassinas ou aliens que salvam a terra. Não so pode, como existem. Meu Namorado É um Zumbi, Kick-Ass, Super-Homem. E duvido esses serem os únicos exemplos possíveis.

E porque estou falando disso? Pois pode não parecer à primeira vista, mas Stray Dogs é um HQ de suspense, o qual envolve cães abandonados e um mistério em volta de assassinatos, onde os animais protagonizam a obra. Tudo isso no estilo de uma animação dos anos 80, onde eles conversam entre si e tem expressões mais detalhadas.

Logo se você respondeu sim à pergunta de antes, parabéns, tem uma puta leitura em mãos. A qual muito possivelmente vai agradar quem respondeu não por ser parcial. Visto que tanto o traço como a maneira que a história se desenrola parece um filme animado e como boa parte do enredo, diálogos e cenas de impacto remetem a um filme de suspense.

Como já disse a princípio a obra não aparenta ir nesse rumo, tirando as fantásticas capas alternativas que homenageiam filmes clássicos de terror. Sim, outro ponto a ser colocado aqui nas influencias, mas que não está tão presente. Pois Stray Dogs é quase algo livre de violência e segue tranquilo assim por boa parte da trama. Uma pena para alguns, pois realmente é quase.

Apesar de não ter gore propriamente dito, quando os autores querem impactar o leitor existe sim cenas improprias a menores, e que apesar de não serem tão gráficas podem deixar pessoas mais velhas bem perturbadas. Parte pela cena apresentada, parte pela ideia do que aconteceu fora de cena para poder chegar naquele ponto.

E tudo isso que deveria nem funcionar na visão de alguns, acaba criando um quadrinho extremamente prazeroso de se ler onde cada página vira mais rápido à medida em que se aumenta a tensão, passando por alguns pontos bem surpreendentes e culminando num excelente final.

Parte de o motivo desse enredo funcionar e justamente o oposto do que venho dizendo o texto inteiro. Animação. O traço remete e certamente os animais tem características típicas de um desenho, mas no geral eles agem e pensam como animais. Nada de acrobacias mirabolantes ou planos envolvendo objetos da casa. Eles são cachorros e ponto final.

Isso é perfeitamente colocado nas páginas iniciais do quadrinho onde explicam a memória de curto prazo que os cães possuem e como estatisticamente e difícil o animal se virar contra o seu dono. E isso é utilizado a todo momento para esconder segredos do leitor e fazer com que algo simples, como regras da casa, se torne um verdadeiro empecilho. Junte isso com portas trancadas, castigos e afins e temos um verdadeiro cenário de prisão.

E toda essa loucura lucida tão bem trabalhada foi criada por um grupo também inusitado. O quadrinho e assinado por Tony Fleecs, o qual faz o formidável roteiro, e Trish Forstener, que ilustra tudo de forma tão surpreendente. 2 autores saídos de Meu Pequeno Pônei em sua primeira obra realmente autoral. Já cenários e cores ficam, respectivamente, com os veteranos Tony Rodriguez e Brad Simpson.

No fim Stray Dogs é um HQ imperdível para quem é fã do inusitado. Talvez o enredo caia como simples, novelty, como dizem para coisas diferentes sem conteúdo. Mas me arrisco aqui a afirmar que isso vai ser difícil, e mesmo que ocorra outros aspectos da obra devem agradar. Não é um must read, mas acredito que tudo que eu falei crie uma experiência única o suficiente para valer a pena o seu tempo.

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