Round 6 / Squid Game – Brincando com a vida

Eu já escrevi várias vezes sobre minha opinião quanto a violência em diversas mídias, principalmente quando é algo visual, seja num mangá, anime, filme ou no caso dessa resenha, uma série de TV. É algo que eu adoro, pois puxa algum instinto básico dentro de mim e me faz vibrar com cada cena, porem apenas quando essa brutalidade é bem investida. Ou seja, quando o ato em si não é algo em vão e serve para mover o enredo.

Por exemplo. Se temos uma serie mostrando o cotidiano escolar e no final desta é mostrado uma decapitação para chocar o espectador, isso fica estranho devido ao teor de todo o restante da obra, a não ser que os criadores consigam fazer algo mirabolante para justificar a cena gratuita.

No exemplo contrário, se a temática for algo focado no terror, ter essas mortes vai agregar no impacto e condiz com todo o restante. E ainda assim e preciso ter um enredo forte para não ficar parecendo algo grotesco apenas para ser grotesco. Um fanservice barato, que alguns colocariam como doentio, e que serve de chamariz para o tal instinto que mencionei, so que de forma mais crua.

Um cenário bom para justificar tais atos costuma ser aquele empregado em Saw. Uma espécie de jogo doentio de vida ou morte com dificuldade brutal. Esse é o estilo empregado em Round 6. Mas ainda assim a regra do enredo se aplica, e ficamos nos perguntando se vale nos submetermos a ver carnificina em prol de diversão. Precisamos de algo para justificar correr atrás desse tipo de série. E ao mesmo tempo fica a pergunta “é mais do mesmo?”.

Isso porque por mais que o cenário de jogos seja algo interessante, infelizmente essa é uma temática que vem ganhando tanta força ultimamente que ela própria já se tornou uma espécie de cliché. Similar há como muitos veem o subgênero Isekai. No início era algo diferente, virou febre e agora existe até um certo repudio por parte de alguns.

A princípio Round 6 parece ir na contramão de muitas. Não vai ter os jogos da morte logo de cara, mas sim apresentação de personagem com um certo drama e já empregando algumas fortes características do gênero. Temos o underdog, o perdedor, o personagem principal que não parece ter nada de bom, mas eventualmente vai ganhar, ou no mínimo chegar longe. E no drama deste já se vê um certo repudio pela sociedade, governo e capitalismo. Algo que se mantem de forma constante no decorrer da obra.

Nesse ponto de dramatização dos personagens é onde Round 6 me ganhou. Eu adorei os atores, apesar de que alguns tiveram papeis bem rasos, possivelmente devido a duração da série. E mesmo em situações clichês ou ações rotineiras eles brilham em tela, caracterizando muito bem cada personagem. O que é ótimo, uma vez que os jogos em si não são tão criativos.

Digo isso pois a serie segue o caminho fácil. Ao invés de criar jogos novos com regras únicas, ela pega brincadeiras de infância típicas da coreia, com apenas mudanças sutis que servem para mudar o teor do jogo. “Use facas”, “se mover você morre”, “seja rápido”, e assim vai. Tirando o quinto game e situações de “interlúdio” o jogo todo é assim.

Juntando esses elementos e os misteriosos “criadores” do jogo, pessoas de máscaras e vozes alteradas, temos a formula certa do sucesso. E não é para menos. Pois muitos dos elementos mostrados na obra são reminiscentes de outras series, filmes e mangás. A quem aponte plagio, a quem entenda como homenagem e tem que enxergue somente como inspiração.

Os tais mascarados que aparecem durante todo o jogo lembram Liar Game. O jogo inicial de “Batatinha quente, 1, 2, 3” remete instantaneamente ao início de Kamisama no IIutori. Enquanto boa parte da trama e o protagonista puxam elementos de Kaiji. Sem contar que tem pontos que vão lembrar incontáveis outras obras, provavelmente voltando até Battle Royale.

Não vou entrar no mérito do plagio aqui, até porque a obra me pareceu se diferenciar bastante dos demais, apesar desses elementos reutilizados bem na cara. E enquanto o entretenimento for bom e não for realmente um roubo eu estou ok com isso.

Ao meu ver Round 6 se diferencia o suficiente e traz a mesa algo aceitável. Não consigo ver como sendo único, mas ao menos ela se sobressai nos pontos mais diferenciados. Os atores são realmente muito bons e o plot consegue passar bem aquilo que busca discutir. E para muitas pessoas isso é o suficiente. Se não Round 6 não seria todo esse sucesso.

Porem se você acompanha o “gênero” talvez fique incomodado com diversos elementos. Eu pessoalmente acho nada demais as semelhanças, mas não custa mencionar. Assista o começo e tire suas próprias conclusões. Muito aqui vai ser repetitivo, e os jogos não tem tanto impacto nem criatividade por si so. O que por vez faz o seu apego por cada personagem ser importante.

No meu caso, ao ver a serie eu fiquei apagado aos personagens no sentido de achá-los interessantes. Eu queria pegar e ver como iam agir a cada novo cenário apresentado. Porem eu não tive um apego emocional, muito provavelmente por saber como se daria a serie desde o seu início. E, portanto, eu não tive tanta tensão ou impacto nas partes mais dramáticas.

Mas isso sou eu… vi gente que chorou durante a obra. Talvez para muitos Round 6 ainda seja um primeiro encontro com esse modelo de série, e isso é bom. Sim, é algo muito utilizado, sim, ficar mais famoso pode piorar o gênero. Mas sabe, por outro lado, eu gosto dessa besteira toda. Sou o público alvo. O filho do capitalismo que sente prazer na morte alheia. Sou o mascarado assistindo o proletariado. Na ficção, logico. Mas acho que esse gosto tem muito a dizer sobre como é o ser humano. E a serie brilha em explorar esse conceito. Mesmo que não seja a primeira. E eu quero mais disso, do mesmo. Mais desse pensamento que nos faz divagar. O resto e diversão cega, primordial.

Logo apesar de terem muitas obras similares que considero imensamente melhores que Round 6, por milhares de motivos, essa ainda fica como sendo uma recomendação. Assista o começo, note os detalhes, entenda os personagens e tente se divertir. Mas não a enxergue apenas como algo sendo grotesco por ser grotesco.

E numa última nota. O detetive infiltrado é um sub-plot bem interessante, que achei divertido justamente por ser a forma como se mostra os “bastidores” dos jogos. E talvez para quem já viu muita coisa nesse esquema esse seja o ponto mais interessante. E se prepare para o final… talvez seja o ponto mais clichê e sem graça. Mais um pouco de afirmação, só que super na cara, de algo que já era extremamente obvio e você enxerga a quilômetros de distância. Ruim? Não. Apenas um pouco decepcionante. Mas o restante da série compensa.

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