A loucura transbordante de A Page of Madness

A Page of Madness é um filme em preto em branco de 1926, bastante experimental, tal qual vários de sua época. E que já foi considerado lost media. Ou seja, o todo do filme não se encontrava, com sua existência atribuída apenas a materiais promocionais. Como por exemplo, uma foto que mostra a plateia indo ver o filme e Musei Tokugawa, um famoso benshi, em posição para narrar a obra.

Esse filme considerado perdido, principalmente após a guerra, e reencontrado 45 anos depois escondido em um barril de arroz, pelo próprio diretor Teinosuke Kinugasa (Gate of Hell, Crossroads). Devido ao tempo passado e ao local de preservação, o filme sofreu perdas irreparáveis, tendo diversos minutos perdidos. Além disso, sua narração original e orquestra, a qual tocava ao vivo na época, não tem mais registro. Até por serem elementos não comumente gravados.

Ainda assim, caso queira ir atrás, o filme teve diversas versões restauradas ao decorrer dos anos e é perfeitamente tranquilo entender o todo da obra, mesmo que sem a narração de um benshi ou dublagem. Eu mesmo assisti dessa forma, e com uma orquestra moderna (Alloy Orchestra, 2016) fazendo os sons do filme de maneira perfeita e totalmente imersiva.

Ok que dizer “é perfeitamente tranquilo entender o todo”, talvez seja um exagero por se tratar de um filme mudo, avant-garde e inspirado no expressionismo alemão. Quero dizer que o plot básico, de um senhor trabalhando no hospício onde sua esposa foi internada, é praticamente impossível de se perder. Mas outros detalhes do filme que vão mais além, e destrincham tudo que ocorre, vai exigir bastante atenção do espectador.

Resumindo, não é um filme convencional que você pode ver só desligando a mente, como gostam de dizer. Você vai ter de notar cada detalhe, tentar entender onde cada peça se encaixa e talvez até recriar as conversas em sua mente. Não no sentido de um diálogo integral, mas o que poderiam estar a falar em tal momento. Como por exemplo “Aqui eles devem estar falando do filho”, entende?

E eu acho que parte da graça de A Page of Madness é exatamente isso, de ir lá assistir esse filme de terror, suspense e drama enquanto o analisa, tirando suas próprias conclusões, ao ponto que eu diria que é preferível ir ver o filme e então retornar aqui, para que meus achismos não só removem parte dessa experiência, como não o coloquem numa certeza sobre o todo, que nunca foi certeza a princípio.

Como dito, o filme acompanha um senhor (Masao Inoue) que trabalha num hospício, como faxineiro, e lá sua esposa (Yoshie Nakagawa: The Story of the Last Chrysanthemum, Crossroads) está internada. Mas antes de conhecermos eles nos deparamos com uma cena surreal, porém divertida, de uma bailarina em apresentação à frente de uma bola girando. Disso temos a transição para uma cela, onde uma das internas (Eiko Minami) continua a dançar.

Essa cena é uma das mais importantes do filme, pois seta rapidamente o tom, mostrando que vamos constantemente devagar entre a mente dos internos e a realidade. E mesmo que isso não ocorra, cenas como essa da dança ao seu limite máximo, se repetem para manter o estranhamento e deixar sempre claro que se trata de um hospício. Não temos muito desenvolvimento com esses loucos, mas são eles que orquestram boa parte do filme, no sentido de que sem eles a obra perderia muito de seu impacto.

As barras da cela também servem para dar ao espectador uma constante sensação de estar preso junto deles, com imagens sobrepostas, cenários repetidos e ângulos de câmera aumentando a sensação de loucura. Com o tempo, o presente, passado e as mentes se misturam ainda mais, nos garantindo um mergulho profundo na insanidade e tirando qualquer resquício de linearidade.

Esses momentos são contrapostos com cenas nos jardins, casa ou festival, que mostram o faxineiro e sua família, por vezes desenvolvendo eles, por vezes mostrando eles rindo e se divertindo em algo não muito diferente das caras, bocas e olhares que vimos pouco tempo antes nós internos. Adoro esses momentos, pois enfatizam bem aquilo de confundirmos risos e choros, além de mostrar que todos tem um pouco de insano.

Essa temática vai sendo colocada cada vez mais em tela, até o ponto que temos uma briga e daí para frente o faxineiro parece se tornar cada vez mais um dos internos, com sua mente divagando a todo o momento, e assim também finalmente dando algumas respostas sobre o que realmente aconteceu para chegarmos naquele momento de sua esposa como interna.

Agora se me permitem, gostaria de entrar ainda mais dentro do filme, com spoilers. Eu acho que, e guarde bem essa palavra, “acho”, que a esposa ficou louca por causa do faxineiro. No início o filme mostra ela lembrando de um bebê, temos sua filha (Ayako Iijima) lhe agarrando e água. A interpretação inicial seria de que ela deixou a criança cair no mar ou talvez que ela tivesse perdido um filho durante o parto. Alguns falam de tentativa de suicidio tentando levar a criança junto.

Eu não descarto essas possibilidades, mas próximo ao final temos a mãe tentando impedir a filha de ir atrás de um homem, e o faxineiro não só puxa a mulher como a espanca, e momentos depois ela é levada ao hospício. Isso me faz crer que ele é o responsável por tudo, o que condiz com ele tentando a todo o custo se redimir com ela, fora outras ações do mesmo no filme, como bater num interno ou tentar retirá-la do hospício a força e ela com medo constante.

Porém, ela ter ficado com medo também pode remeter a cena inicial da filha lhe agarrando, visto ser um cenário parecido. Ao mesmo tempo, temos um cão uivando, o que devido ao estado de mente dela pode ser o motivo real de estar com tanto receio de sair. E acho que esse parágrafo resume bem minha sensação com o filme, de tirar mil caminhos de uma mesma cena.

Ainda assim eu fiquei preso nessa ideia de que ele é o culpado, com a parte do bebê sendo interligada à cena do espancamento. No caso, ela é uma mãe muito protetora, não queria ver a filha com o cara da carruagem e rolou o que rolou devido ao esposo violento, que possivelmente era a favor pois o rapaz claramente era rico. Daí como interna sua mente claramente regride, então ela fica lembrando da filha como bebê, mas em certos lapsos voltam imagens mais recentes e é daqui que ela lembra da filha adulta. A parte da água pode ser choro, ou até defloramento.

Só que mais pro final, o filme me dá outra interpretação, talvez até mais crível, à qual tive de dormir sobre a ideia para então trazer aqui. O faxineiro é um dos internos. Tem algumas cenas fantásticas mais pro final, do faxineiro vendo os médicos no chão, internos dançando. Depois temos a icônica parte das máscaras, que dá o visual do pôster. E termina com ele limpando o corredor e um interno o comprimenta.

São essas cenas que eu fiquei revendo em minha mente, mais algumas do início, para chegar a essa conclusão. A princípio eu achei essas as melhores partes do filme, mas não estava a entender, salve alguns detalhes como o festival se tornando uma procissão fúnebre. Mas ainda assim, isso não explica boa parte.

Eis que um detalhe levantado noutro review me chamou atenção “o filme termina como inicia, mas em outro ângulo”. E realmente, ele termina num corredor, mas algo está errado. Começando pelo interno que lhe comprimenta, que é a cara do namorado da filha, o da carruagem. Porque ele estaria internado?

Temos cenas dos internos abrindo as portas tranquilamente, e vários deles, como a dançarina, tem roupas diferentes. No jardim, as crianças brincam com os internos. Logo não poderia a família inteira, ser apenas vários loucos? A filha por exemplo, usa o mesmo vestido durante o filme inteiro, sendo a roupa que usara para ir na carruagem.

Na cena do “ritual”, eles colocam máscaras Noh. São máscaras antigas, com expressões fixas. Elas dão ainda mais um ar de loucura e mostram em parte a verdadeira face dos internos. O faxineiro coloca uma máscara Okina, que precede as Nohs. Dando a entender que ele é o mais antigo ali, o que também condiz com o sinal de reverência. O primeiro dos loucos, que formulou toda uma vida falsa em sua mente.

As Noh também podem remeter a um momento mais espiritual, o que condiz com os médicos caídos e a marcha fúnebre. Levando a crer que naquele momento o faxineiro desejava a erradicação dos médicos e a libertação do cárcere, o hospício. Só que ao mesmo tempo isso bate com tudo que disse, também pode fortalecer a ideia anterior.

No sentido de que ele sonha com todos abatidos para não ter problemas de pegar sua esposa, o que reforça o lado violento dele, e a parte das máscaras é como ele se sente em meio aos internos. E eu poderia continuar e continuar, mas a resposta correta aqui é que não existe nada claro. Um filme que vai de fato a interpretação de cada um.

Que eu acho fenomenal, por tudo dito aqui, e que gostaria de discutir o mesmo por horas, mas que pode ser muito confuso e entediante para outros. No fim eu acho que vale a pena ver, nem que fazendo um group watch para tornar algo mais tragável. E no mínimo serve como um encapsulamento de seu tempo, em especial como era o hospício naquela época e região, fora o estilo de cinema.

Bom mencionar também que a obra teve roteiro escrito por Yasunari Kawabata, primeiro japonês a receber o Nobel de literatura. O filme foi idealisado pelo grupo avant-garde de literatura, Shinkankakuha.

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