Kimetsu no Yaiba – O mangá que virou febre

Kimetsu no Yaiba, ou Demon Slayer se preferir, é um sucesso inimaginável. O mangá quando saiu na Shounen Jump deixou uma leva de fãs e surpreendeu muito pela decisão de encerrar tão rapidamente, mal passando dos 200 capítulos. Mas foi quando o anime saiu que a coisa realmente mudou. Graças ao trabalho excepcional do estúdio Ufotable, Kimetsu virou febre mundial e no Japão se firmou como clássico instantâneo.

O objetivo desse texto e fazer uma análise do mangá em si, mas nem mesmo eu posso negar o que ocorreu com o anime e deixar de comentar. Sabe, eu não gosto de assistir adaptações, sempre me firmo na frase “o original é melhor”, e ainda assim até eu fiquei curioso em ver o anime. Minha curiosidade me levou a ver o episódio 1, ver o episódio 1 me fez assistir ao começo, e apesar deu genuinamente querer ver mais, nesse ponto me segurei e disse “o original deve ser melhor, o original deve ser melhor, o original…” quase que em mantra.

O que ocorreu aí é que eu vi esses poucos episódios e na minha cabeça o que realmente rolava era “Meu deus, isso é melhor que o original???”. Sim amigos, eu estava no trem do hype. Amei cada segundo do que assisti dessa adaptação e me dói admitir que eu gostei mais do anime. E consigo ver claramente o porquê esse se tornou algo tão gigantesco. Fazia anos que eu não olhava uma animação adaptada e ficava tão empolgado.

Ainda assim, diria que mais para fazer uma análise padrão como esta, eu deixei de lado tudo que o anime ofereceu para me focar na obra escrita. Kimetsu ganhou diversos livros, spin-offs, um filme em tempo recorde e se tornou o xodó de muitos. No Japão o rosto dos personagens estampava diversos produtos similar ao auge da Turma da Monica no Brasil. Desde bonecos e colecionáveis até frutas, sopas, macarrão e assim vai. Uma febre sem igual, impossível de não enxergar e querer fazer parte do clubinho, e ainda assim lá ia eu pelo caminho contrário. Ler kimetsu no Yaiba – Demon Slayer.

O início, justamente a parte que eu tinha assistido, foi uma das mais difíceis. Tanjiro perdendo a família, Nezuko virando um demônio, o encontro com o experiente caçador Tomioka, a batalha com o “Geodude” e o treinamento do mestre Urokodaki. Nada disso é realmente ruim no mangá e eu esperei um tempo entre ver o anime e ler, e mesmo assim, foi maçante olhar aquilo e me segurar para não ir atrás da versão melhorada. Não sei se posso dizer o mesmo da qualidade de todo o anime, mas nesse pedaço certamente era o caso.

Saindo desses traumas iniciais e treinamento, os quais definem os personagens principais e objetivo central da trama, eu passei a gostar bem mais do mangá. Afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente. Ou algo assim. O desafio para se tornar caçador é muito bom, a cidade com o primeiro encontro com o temível Kibutsuji e seus lacaios é fantástico. Era lutinha padrão desse tipo de mídia, não nego, mas era divertido e eu me contentei com isso. Apesar de ainda imaginar de leve como seria essas partes no anime. Algo que permaneceu durante quase toda a leitura.

Ou melhor colocando, foi um sentimento que perdurou até o arco do trem, que foi a temática do primeiro filme de Kimetsu no Yaiba. Mas ao mesmo tempo que eu olhava os acertos do mangá e pensava como seriam adaptados, eu observava cada parte irritante e pontos que eu colocava como defeitos da mesma forma. Me perguntando se poderia ocorrer o risco de esses serem agravados.

Eu adorei os personagens de Tanjiro e Nezuko. Os 2 sozinhos viajando em busca de uma cura e vingança, principalmente no início, dava a obra um “que” de samurai misturado com terror, ao menos no mangá. Uma suposta temática que logo some. Samurais não são tão importantes, sendo apenas mais um ponto para situar o período histórico. Já o terror se mantem de forma leve, estando mais presente no visual absurdo das criaturas. Assim focando bem mais nas batalhas e consequentes dramas gerados por cada embate. Uma mudança que não é ruim, so diferente da percepção inicial.

O grande problema aqui é a consistência e a inconsistência, por mais que pareça papo de doido. Kimetsu vai alterando entre esses momentos de ação e drama com partes cômicas que tentam aliviar o leitor. Mas que em minha opinião são muito chatas e maiores do que deveriam ser.

Basicamente a estrutura de Kimetsu é enfrentar um demônio muito forte, com múltiplas formas ou poderes que atrapalhem o progresso, em uma equipe que tenha Tanjiro e algum aliado chave que vai receber destaque. No meio dessa luta pode ter traumas psicológicos, mutilação, mortes e assim vai. A autora realmente não se segura e personagens nomeados vão sofrer ao extremo. Sendo que é nesse ponto dos poderes dos demônios e do drama que detalhes são alterados drasticamente em tom, daí a ideia de inconsistência.

Terminando isso os personagens retornam a mansão de Shinobu. Esse local é um tipo de hospital para se recuperarem. As vezes ocorrem treinos, mas a parte central desse momento de pausa é a comedia, como já bem disse. Assim fazendo a obra seguir uma estrutura fixa, daí a consistência. E é nesse ponto que entram os outros 2 principais, Zenitsu e Inosuke.

Quando eles apareceram, odiei ambos. Inosuke acaba ganhando o leitor com o seu jeito meio matuto da roça e vontade constante de lutar, que admito, muitas vezes é realmente engraçado. Já Zenitsu é um porre. Um caçador de demônios que passa o tempo todo gritando, reclamando e falando merda pra Nezuko que nem entende. Sendo um dos personagens que eu mais detestei em muito tempo.

Logo como podem ver, o que quero dizer com pontos constantes e inconstantes é isso. A obra segue essa estrutura fixa de monstro de RPG da semana e desgraças nível Shiryū “Oi, perdi os olhos” o tempo todo e tenta aliviar o leitor com um cara que não para de gritar, pois por algum motivo isso é hilário no Japão. Ao mesmo tempo que vai apresentado personagens, vilões, dramas e arcos novos realmente fantásticos e imprevisíveis que extrapolam cada vez mais em todos os aspectos, sem jamais deixar o leitor realmente acostumado e podendo agravar certos elementos mais pesados.

Eu não posso deixar de dar ênfase em como isso é o maior ponto negativo de Kimetsu no Yaiba. E também não são as únicas mudanças bruscas na trama. Quando a obra está para acabar em seus últimos 2 arcos ela muda bastante também, muitas vezes dentro desses mesmos arcos. Isso referenciando principalmente o teor dos acontecimentos. E eu diria que tirando essa estrutura as partes de ação e drama são diferentes o suficiente entre si para não enjoar o leitor, no fim criando algo até que agradável.

Voltando aos personagens, para a alegria de muitos e azar de outros, Zenitsu e Inosuke não são tão presentes quanto parece. Em diversos momentos eles somem da trama dando mais espaço a outros personagens ou simplesmente não participando de certos arcos. O que é tanto uma vantagem quanto outro ponto fora. De um lado ficar alterando quem luta junto de Tanjiro cria um leque fantástico de personagens memoráveis, mas por outro não evolui esses 2 que deveriam ser personagens mais importantes. Inosuke consegue mostrar uma evolução até que constante, mas mínima se comparada a outros personagens e seu arco final de desenvolvimento deixa muito a desejar.

Já Zenitsu, apesar deu genuinamente não gostar dele, muda bastante somente no arco final e isso me incomoda mais do que sua personalidade. Basicamente ele é posto de escanteio durante quase todo o mangá, sendo justamente isso, o garoto irritante que fica sério só quando está dormindo. Ele nunca muda, e do nada ele tem um demônio rival e passa a ser um personagem serio que honra as técnicas do mestre. Se você leu sabe o quanto isso ficou estranho e jogado sem motivo. Uma evolução brusca e forçada, talvez sem necessidade, que me leva a pensar que a autora correu para finalizar a obra.

Nesse mesmo nível de baixo desenvolvimento temos Kanao. Ela é uma personagem bem secundaria, evolui a um ritmo de lesma e so tem realmente sua resolução posta à prova no ultimo arco. Mas tirando esses e personagens terciários, eu diria que todo o restante é o oposto. Desenvolvimento longo e muito bem trabalhado, se não personagens já muito bem definidos desde sua primeira aparição.

Algo inclusive importante, pois, o grande foco de Kimetsu, além das lutas, e justamente mostrar dramas e superação. Existe também todo um contesto espiritual na trama, sobre viver sua vida ao máximo sendo você mesmo, sem jamais desistir de seus objetivos para fazer uma passagem tranquila. É um subtexto muito bonito e com certeza um dos pontos altos da obra. Um dos, pois não é o único detalhe colocado dessa forma.

Existem pontos que ficam extremamente visíveis, mas outros so pude notar de fato nos dois últimos capítulos. Vi muita gente odiar esses por conta das mensagens e de ter aquele clichê de personagens reencarnados séculos depois no mundo moderno. Acho bom falar desses pois não enxergo como spoiler em si, principalmente o último. São prólogos. Apenas uma maneira de ter certeza de que as mensagens da obra foram transmitidas, e essas são sim mensagens poderosas que você como leitor deve captar. Pois acho que se leu tudo, até aqui, enxergando somente espadas e poderes, algo está errado.

Muito mais que um mangá de lutinha, Kimetsu é um puta drama, por vezes realmente pesado, que impacta o leitor e não tem medo de jogar mortes ou gore para aumentar o choque, apesar das impressões iniciais. Acho sim muitos pontos forçados. A estrutura é previsível e ao mesmo tempo a autora surpreende a cada novo arco. O mangá escalona de forma absurda e todo personagem, sim, até mesmo o Zenitsu, eventualmente tem sua cena de destaque. Por mais que alguns deixem a desejar.

No fim o hype por Kimetsu é merecido. Essa obra tem muitos pontos positivos. Não é sem seus defeitos, pois tem muitos, alguns inclusive que nem mencionei aqui. Mas certamente está muito acima da média se comparada a outros Shounens. Portanto no geral eu acho um mangá que vale a pena a leitura.

E agora, com licença, vou ver finalmente o anime. Pois quem disse que diminuiu o meu hype? Quero ver principalmente como Kibutsuji vai ser adaptado, pois na boa, depois de ler tudo ele se consolidou para mim como um dos maiores vilões da Shounem Jump. E isso não é dizer pouco. Segura esse hype também e vem comigo, seja lendo o original ou aproveitando a febre do anime.

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